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Uma história sobre a amamentação quando o bebê morreu


A vida deu aos pais de Rubén a oportunidade de levar uma gravidez até o fim. A alegria do parto, de abraçar o filho fora da barriga, juntou-se ao mal-estar da morte na UTI Neonatal. A morte levou seu filho, mas esses pais decidiram prestar-lhe a melhor homenagem: Olaya se tornaria uma doadora do leite de Rubén, seu filho falecido. Alimento e conforto para sua alma e para outras pessoas que possam precisar. Esta é a história da amamentação quando o bebê morreu.

Rubén nasceu com 42 semanas de gestação, era um bebê perfeito de 4,825 gramas de amor, 52 cm de paixão, gordo, adorável, precioso, carinhoso, querido, esperado a termo. Nosso bebê arco-íris nos deu a chance de sonhar, projetar e viver minha gravidez de forma muito consciente.

Eu estava muito preparado ou, assim acreditava, para o caos, para o Rubén desmontar meus pilares e reconstruí-los juntos de acordo com suas necessidades e preocupações. Como uma “mãe lida”, ela achava que tinha ferramentas e lugares para recorrer em todas as possíveis situações adversas que pudessem surgir. Que delirante!

Preparei meu plano de parto, entre muitas outras coisas, mas Eu não pensei em conhecer a morte, embora soubesse que podia acontecer, embora a cada madrugada lhe agradecesse por sentir Rubén ao meu lado, mais um dia com ele, um dia a menos para dar uma cara a esta cumplicidade que criamos juntos. Um dia a menos para abraçá-lo com meus braços em vez de minha barriga.

Embora acreditasse que tinha um pé no chão, nunca realmente pensei que tal injustiça da vida me tocaria mais uma vez, mas meu arco-íris se tornou uma estrela. Tive que viver a experiência indesejada, uma experiência que não deveria existir.

A morte nos surpreendeu. Daquele não sabia se haveria protocolos em hospitais, onde o pesadelo pudesse ser ainda maior ou uma experiência agradável dentro da dureza e da dor que acarreta a morte de um ente querido. Eu não sabia de nada, ela era apenas mais uma anofóbica e, como tal, nem me perguntei como seria sua forma de lidar com a morte, como seria nosso adeus para sempre. "Haveria tempo", você pensa, mas a verdade é que não há. A morte diz que o tempo acabou, o tempo está passando, acabou!

Com meu plano de parto, eu queria dar ao meu filho as melhores boas-vindas à vida. Ele não achava que as boas-vindas e as despedidas fossem igualmente importantes. Agora eu sei e divido com quem lê estas linhas.

Eu sabia sobre cesáreas humanizadas e como ser flexível se acontecesse para não colocar em risco a alimentação do meu filho, mas nada sobre se eu poderia vesti-lo ou não depois que ele morresse, se eu pudesse ficar com ele, dar banho, prepará-lo para seu funeral, nem que existissem opções como o hospital ou os pais assumindo o corpo.

Hoje sonho em criar um plano de parto completo, e com o dia em que se fale da morte sem muito pensamento. Onde não seja tão difícil ler ou encontrar essas informações. A morte levou meu filho e muitos sonhos, projetos familiares, vida destruída ... praticamente tudo destruído ...!

Mas havia um sonho do qual ele não conseguia se livrar. Rubén e eu íamos ser doadores de leite. E em homenagem a ele, toda a sua vida, curta ou longa para muitos, mas no final das contas toda a sua vida na terra. O que começou como um ato altruísta e honrado se transformou em um ritual de despedida.

Graças a Rubén e à sua existência, começou a brotar dos meus seios seu colostro carregado de esperança, alimento para a minha alma, conforto, fortalecimento; Também validou minha maternidade, nós duas ainda estávamos de alguma forma ligadas, zombávamos da morte, afinal meu corpo funcionava perfeitamente. Assim comecei meu duelo, da forma mais humana e primitiva possível. Continuando com o processo fisiológico que segue o parto, a amamentação.

Minha doação não foi tão rápida e custou muito esforço para os bebês que precisavam dela aproveitarem. Fiquei amamentando por até uma semana depois de terminar os antibióticos. Foi então que comecei a guardar o leite para o banco de leite.

Depois de levar vários coolers para o banco de leite em nome de Rubén, aos poucos, apesar dos meus esforços para ter mais leite, mequei e parei de doar, pois o leite que saía não chegava mais aos potes. Eu havia cumprido a meta de trazer um refrigerador para o banco de leite em nome de Rubén e era hora de passar para o meu próximo estágio de luto.

Doar o leite do meu filho foi minha primeira ferramenta para andar, para me manter em pé, vivo e ativo. A melhor pílula para o alívio da minha dor foi incorporada como padrão, graças aos hormônios da lactação, ocitocina e prolactina agindo como neuromoduladores. Além disso, a prolactina reduziu os níveis de cortisol, o hormônio do estresse. Isso não significa que dói menos ou que é um atalho para a sua dor. O duelo não tem atalhos, você tem que vivê-lo.

Esta ferramenta poderosa e natural permitiu-me não só homenagear o meu filho, mas também dizer adeus àquela ama de leite que queria ser, aos sonhos, aos projetos familiares e à convivência, uma vida em que Rubén nos enterraria e não nós a ele.

Muita magia inesperada nasceu dessa doação de leite. A única notícia boa que recebi do hospital foi sobre o leite, o bombeamento me manteve ativo e continuei a me cuidar como teria feito com o Rubén, com os bebês que não conhecia, nem conheceria. Queria que fossem pessoas boas, que amariam a vida, o trabalho, o esforço, uma vida longa, saudável e feliz.

E assim surgiram várias iniciativas que vou lhe contar, caso precise ou busque apoio.

# Movimento Rubén para um duelo social, compartilhado, normalizado, com amor, empatia, respeito e livre de julgamentos.

#cadenadelaleche onde todas as mães que ouviram nossa história decidem pegar um drink a mais para o banco de leite e que Rubén e eu adoramos.

#donantesconestrella, que surgiu como uma necessidade de buscar iguais para mim. É um grupo de WhatsApp onde as mães que, após a morte dos nossos filhos, decidiram doar o leite dos nossos pequenos e encontram apoio e contenção, e onde pode entrar qualquer mãe doadora que precisar de nós.

Autor: Olaya Rubio Vilchez # MovimientoRubén

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